Introdução
Acompanhando meus pacientes e amigos em tratamento de câncer, vivemos juntos essa jornada desafiadora. Estamos prontos para apoiar e ajudar, mas também compartilhamos dos mesmos medos e incertezas que acompanham esse processo. Pensando nisso, achei oportuno trazer uma reflexão sobre o tema e considerar como a terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) poderia fazer parte do padrão ouro nos atendimentos a esses pacientes. Aproveito para deixar também o resumo de um artigo de revisão sistemática que aborda especificamente a relação entre oncologia e EMDR, lançando luz sobre como essa abordagem pode contribuir para aliviar o sofrimento psicológico associado ao câncer.
Câncer tem desafios emocionais
Pacientes que recebem um diagnóstico de câncer precisam não apenas de acompanhamento médico, mas também de acompanhamento psicológico em todas as etapas do longo tratamento. Esse espaço de acolhimento e escuta é fundamental para que possam elaborar os medos, ansiedades e incertezas que surgem diante da doença. Afinal, o câncer não é apenas uma condição física: ele carrega um peso simbólico e emocional que pode marcar profundamente a vida de quem o enfrenta.
Mesmo com tantos avanços na medicina e índices cada vez maiores de sucesso nos tratamentos, a palavra “câncer” ainda provoca temor. Para muitos — e me incluo imaginativamente nesse primeiro momento — ouvir esse diagnóstico ainda pode soar como uma “sentença de morte”. Esse é o poder do estigma que a palavra carrega.
Quem passa por um tratamento oncológico sabe que os desafios não são apenas físicos, mas também emocionais: o medo, a ansiedade e a insegurança acompanham cada etapa. Além disso, existe o período de espera após o tratamento — geralmente cinco anos — até que se possa falar em “cura definitiva”. Esse intervalo é marcado por exames de rotina, consultas médicas e uma apreensão constante. É nesse cenário que o suporte psicológico se torna ainda mais essencial, pois ajuda o paciente a lidar com a incerteza e a manter qualidade de vida durante esse tempo de espera.
Dentro desse contexto, abordagens terapêuticas específicas podem oferecer vantagens importantes. Entre elas, destaca-se o EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), uma psicoterapia com técnica bem definida, baseada em evidências, que vem sendo aplicada com sucesso em diferentes situações de trauma e sofrimento emocional.
EMDR: uma vantagem para o paciente
O EMDR parte do pressuposto de que experiências altamente estressantes podem ser armazenadas como memórias disfuncionais, ligadas a crenças negativas (“vou morrer”, “não tenho controle”, “sou frágil”). O diagnóstico de câncer, por si só, pode se tornar uma dessas memórias traumáticas.
Reconhecido internacionalmente como tratamento eficaz para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), o EMDR também tem mostrado resultados positivos em casos de ansiedade e depressão — condições muito comuns em pacientes oncológicos. Isso significa que o EMDR pode ser uma vantagem para o paciente, oferecendo uma forma de reprocessar o medo e a ansiedade antes que se tornem registros disfuncionais de longo prazo. Ressalta-se que EMDR é uma terapia para qualquer demanda psicológica.
Evidência científica: revisão sistemática
Um artigo publicado por Portigliatti Pomeri et al. (2020) realizou uma revisão sistemática sobre o uso do EMDR em pacientes com câncer. Foram analisados sete estudos, envolvendo 140 pacientes. Em três deles, o diagnóstico principal era TEPT; nos demais, os pacientes apresentavam quadros de ansiedade e depressão.
Apesar da heterogeneidade nos protocolos (de 2 a 12 sessões, duração de até 4 meses), os resultados foram consistentes: o EMDR reduziu significativamente os sintomas de sofrimento psicológico. Os autores concluem que, embora ainda sejam necessários estudos de maior qualidade metodológica, os dados disponíveis sugerem que o EMDR é uma abordagem promissora para pacientes oncológicos.
Reflexão prática
Se entendemos que o diagnóstico de câncer pode ser vivido como trauma, faz sentido que o EMDR seja oferecido desde o início do tratamento, ajudando o paciente a reprocessar o medo e a ansiedade antes que se tornem memórias disfuncionais. Mais do que tratar sintomas, o EMDR pode ajudar a restaurar a sensação de segurança interna, permitindo que o paciente enfrente o processo de forma mais equilibrada e com maior qualidade de vida.
Conclusão
O câncer não é apenas uma doença física: é também uma experiência emocional intensa, que pode deixar marcas profundas. O EMDR surge como uma ferramenta valiosa para aliviar esse sofrimento, oferecendo ao paciente recursos para enfrentar o diagnóstico, o tratamento e o período de espera pela cura com mais esperança e resiliência.
Referências oficiais
- Organização Mundial da Saúde (OMS): recomenda o EMDR como tratamento de primeira linha para TEPT em adultos.
- Associação Americana de Psiquiatria (APA): reconhece o EMDR como psicoterapia baseada em evidências, apoiada por dezenas de ensaios clínicos.
- Conselho Federal de Psicologia (CFP – Brasil): referendou oficialmente o EMDR como prática compatível com o exercício profissional da psicologia.
Pscioterapeuta em EMDR
Psicanálise Winnicottiana
CRP 06/127735
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