Minha cliente está tão feliz com os resultados de seu tratamento em EMDR que quis compartilhar com outras pessoas. Entendi que seu desejo era genuíno e concordei que criasse um texto ao seu modo. A fim de preservar a ética, nenhum dado clínico será acrescentado. Sinto-me muito feliz em poder ajudar em seu processo de cura. Abaixo está sua narrativa, tal como foi escrita.
Quero falar sobre o tratamento que estou fazendo com EMDR. Vou relatar minha experiência pessoal, única e exclusivamente como paciente. Quando iniciei o tratamento, nunca tinha ouvido falar sobre EMDR e nem sabia o que significava. Conhecia outras abordagens terapêuticas, como a psicanálise, mas também não entendia muito sobre o assunto.
Sempre deixei claro que nunca fui muito adepta à terapia. Ficar falando sobre meus sentimentos e ter outra pessoa escutando… para mim, isso sempre foi muito difícil. Ouço pessoas dizerem que fazem terapia há anos e que não vivem sem sua psicanalista ou psicóloga. Para mim, que sempre fui resistente ao apego emocional, nunca fez sentido a ideia de depender de um profissional. Acredito que isso também esteja ligado ao fato de já enfrentar um tratamento contínuo por conta de uma doença autoimune — a Doença de Crohn. Ter que frequentar consultórios médicos, fazer exames, passar por internações e lidar com tantas outras situações fez com que eu evitasse outros tipos de tratamento. No entanto, após uma consulta com o psiquiatra, relatei sintomas como pânico, ranger dos dentes, dificuldade para dormir e medos sem justificativa, entre outros. Recebi o diagnóstico de depressão e ansiedade.
Iniciei o uso de medicações.
Melhorei? Sim, melhorei. Ajudou — e ainda ajuda muito. Mas o psiquiatra também orientou que eu procurasse um psicólogo. Foi então que, algumas semanas depois, fui ao meu primeiro atendimento com EMDR.
Iniciei o tratamento em agosto de 2025 e, desde então, venho trabalhando memórias que eu nem imaginava que existiam dentro de mim.
Situações vividas e sentidas — física e emocionalmente — que me traziam dor e desconforto, mas que pareciam estar escondidas em meio a nós internos, nos quais eu não conseguia me movimentar nem viver com liberdade. Um exemplo disso era minha dificuldade com multidões.
Desenvolvi uma espécie de fobia. Passei a escolher horários estratégicos para evitar lugares cheios. Quando me via em situações de aglomeração, criava alternativas para escapar: saía de fininho, voltava para casa ou esperava em algum lugar que considerasse seguro até me sentir melhor.
O mais difícil é que essas situações me causavam um mal-estar intenso — a ponto de vomitar, sentir dor de cabeça, dores nas costas, suar excessivamente, perder a atenção visual e tátil, chegando até a sofrer quedas no metrô. Para mim, tudo isso era apenas “falta de atenção”. Eu não imaginava que esses eram gatilhos de algo que havia vivido anos atrás. Momentos que deveriam ter sido prazerosos tornaram-se difíceis e extremamente dolorosos.
Foi o EMDR que trouxe à tona uma memória esquecida: o dia em que fiquei presa, com minha mãe e meu amigo Paulinho, no meio de uma arena de rodeio, enquanto milhares de pessoas corriam para conseguir o melhor lugar em frente ao palco. Depois desse episódio, segui minha vida “normalmente”. Voltei às atividades e nunca associei aquele momento aos sintomas que me acompanhariam por anos.
Mas o sofrimento ficou armazenado. Silencioso. E, a cada situação parecida com aquela vivida no rodeio, era como se houvesse uma descompensação na minha mente — e, principalmente, no meu corpo.
Preciso dizer: depois de acessar essa primeira memória e tudo o que ela trouxe — dor, cansaço físico e mental — minha vontade era nunca mais voltar. Eu nunca tinha passado por um atendimento como o EMDR. Foi intenso. Mexeu profundamente comigo.
Mas, depois de cinco sessões, encontrei um caminho. Entendi que eu era dona da situação.
O melhor é que a Dra. me ensinou alguns recursos para utilizar quando houver alguma descompensação emocional, seja por alguma memória, seja no dia a dia. Aprendi técnicas que me ajudam a equilibrar emoções intrusivas e a me reconectar com o presente. Utilizo também exercícios de respiração e outros recursos em momentos de conflito ou ansiedade — e percebo o quanto eles me ajudam a regular corpo e mente. O “container” é o recurso que mais utilizo. Escolhi também uma cena real da minha vida que me traz boas lembranças. Há assuntos que não dá para resolver naquele momento: eu coloco no container.
É libertador. Está me sobrando tempo para viver.
Depois de um tempo, o tema que antes era angustiante fica mais claro — e a tomada de decisão se torna assertiva.
Falar. Sentir. Permitir acessar. Tudo isso começou a me trazer alívio. Essa memória do rodeio foi a primeira de três envolvidas na fobia, que fomos descobrindo na história clínica. Ao longo do reprocessamento, como se fosse um pântano que, ao ser mexido, deu acesso a outras memórias — e cada uma foi sendo trabalhada e ressignificada.
Como me sinto após esses atendimentos? Consigo falar sobre dessas memórias sem a dor. O mais incrível — e desafiador — foi conseguir entrar no transporte público sem pânico, inteira. Dormir melhor. Perceber que o ranger dos dentes diminuiu.
Essa mudança não aconteceu em anos ou décadas. Me lembro que, na sessão seguinte, após ter concluído o reprocessamento da primeira memória e a terapeuta fazer a checagem, eu disse que estava muito bem e que estava dormindo. Quando ela me perguntou há quanto tempo eu não me sentia assim, respondi: nunca me senti assim. Sempre tive muitas dificuldades para dormir, passava a noite pensando até cansar, e já amanhecia. Tudo isso aconteceu em tão poucas semanas.
É como se um grande portão de um jardim, antes tomado por ervas daninhas, tivesse sido aberto. Agora minha vida começa a tomar forma — e isso é perceptível no meu dia a dia, no trabalho, nas decisões. As memórias não me causam mais perturbação. Também não foram esquecidas. Elas fazem parte da minha história — junto com tantas outras. Como disse, outras memórias traumáticas surgiram, e isso levou à construção de um novo plano terapêutico. Assim, memória por memória, meu jardim vai tomando forma.
Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria esta:
Não minimize seu sofrimento. Ele é real — assim como o meu foi. Buscar ajuda e aprender a cuidar de si fez toda a diferença na minha vida.
Depois que iniciei o tratamento, resolvi me dedicar a consertos e reformar de roupas também. Digo isso porque para me dedicar a consertos e formas tenho que estar diretamente ligada com pessoas meus clientes. Fazer a terapia EMDR melhorou diretamente no meu trabalho.
Por hoje, fico por aqui. Não quero cansar vocês.
Quero que meu depoimento seja um sopro de esperança para dores que, muitas vezes, não conseguimos entender sozinhos.
E quero também agradecer, de coração, à Dra. Beatriz Yamaha, pela forma como fui acolhida em seu consultório — um ambiente confortável, silencioso, calmo e cheio de privacidade.
Ana – 17/02/28




