EMDR: uma descoberta no parque que mudou a forma de tratar memórias perturbadoras

A partir de uma observação simples durante uma caminhada, Francine Shapiro iniciou pesquisas que deram origem ao EMDR, uma terapia que ajuda o cérebro a reprocessar memórias perturbadoras.


Quando
Francine Shapiro percebeu casualmente que o movimento dos olhos diminuía a perturbação dos pensamentos, ela estava apenas caminhando em um parque.

É importante lembrar que, algum tempo antes, ela havia enfrentado um câncer.

Imagine como fica a mente de alguém depois de terminar um tratamento oncológico e ouvir do médico algo como:

“Acabou o tratamento. Agora você está bem. Mas existe a possibilidade de a doença voltar. Boa sorte.”

Com esse tipo de pensamento na cabeça, ela caminhava no parque. Em determinado momento, percebeu algo curioso: quando seus olhos se moviam naturalmente de um lado para o outro, a intensidade daqueles pensamentos perturbadores diminuía.

Intrigada com essa experiência, ela começou a testar o fenômeno de forma informal com amigos. Pedia que pensassem em algo perturbador e, em seguida, realizassem movimentos oculares. Depois solicitava que trouxessem novamente a lembrança perturbadora para verificar o que acontecia.

Ela percebeu algo muito interessante: a mente tem uma capacidade de ativar e desativar níveis de perturbação associados às memórias.

A partir dessa observação inicial, Francine Shapiro decidiu investigar o fenômeno de maneira científica. Realizou pesquisas piloto, depois estudos mais estruturados, publicou seus resultados e, a partir daí, nasceu o que hoje conhecemos como Eye Movement Desensitization and Reprocessing.

Inicialmente, ela deu esse nome porque acreditava que o elemento central do processo era a dessensibilização através do movimento dos olhos.

No entanto, pesquisas posteriores mostraram que outros tipos de estimulação bilateral também funcionavam, como:

  • toques alternados (tapping)
  • sons alternados
  • movimentos corporais alternados

Ou seja, não era apenas o movimento ocular que produzia o efeito terapêutico.

Existem algumas hipóteses para explicar por que isso funciona.

Uma delas sugere que a estimulação bilateral produz uma resposta de orientação do cérebro, semelhante ao que ocorre durante o sono REM, fase em que há intensos movimentos oculares e processamento de memórias.

Outra hipótese aponta para o papel da memória de trabalho: ao manter a atenção simultaneamente no trauma e na estimulação bilateral, a capacidade da memória de trabalho é sobrecarregada, reduzindo a intensidade emocional da lembrança.

Hoje, muitas pesquisas indicam que ambos os mecanismos podem estar envolvidos.

O curioso é que, quando Francine Shapiro aprofundou seus estudos, percebeu que o movimento dos olhos não era exatamente o elemento central da terapia. O que realmente acontecia era o reprocessamento de memórias perturbadoras.

Por isso, teoricamente, a terapia poderia ter recebido um nome como “Terapia de Reprocessamento de Memórias”.

Mas havia um problema: o nome EMDR já estava difundido na comunidade científica e clínica.

Como ela mesma comentou depois: era tarde demais para mudar o nome.

Assim, hoje entendemos o EMDR como uma terapia que ajuda o cérebro a reprocessar memórias difíceis que ficaram armazenadas de forma disfuncional.

Durante o processamento, essas memórias passam a se conectar com outras redes de memória mais adaptativas. Com isso, elas são reorganizadas e armazenadas de forma mais integrada.

Por isso, após um processamento bem-sucedido, a pessoa normalmente relata algo muito específico:

A memória continua existindo, mas a perturbação emocional e corporal desaparece.

O que permanece é apenas a experiência vivida — sem a carga de sofrimento que antes a acompanhava.

É por isso que o EMDR pode produzir mudanças profundas na vida das pessoas.

Uma pequena experiência pessoal

Enquanto eu lia sobre essa história e a descoberta do EMDR, algo curioso aconteceu comigo.

Na mesma hora me lembrei de algo que tinha acontecido poucas horas antes.

Dias atrás, quase fui vítima de um golpe. Alguém estava vendendo um curso que eu queria fazer, mas não era o vendedor verdadeiro. Felizmente, o banco digital acionou um alerta e isso me ajudou a perceber a tentativa de fraude antes que eu finalizasse a compra.

Depois disso, aparentemente estava tudo resolvido.

Mas hoje, quando a pessoa responsável pelo curso entrou em contato comigo para saber se eu iria me inscrever, eu contei o que havia acontecido. Ela tentou me oferecer novamente a inscrição, inclusive em uma condição que parecia boa para mim.

E foi então que percebi algo curioso: eu simplesmente não conseguia acreditar.

Mesmo com o número parecendo oficial e os links aparentemente corretos, meu cérebro estava desconfiado de tudo. Era como se alguma memória tivesse ficado marcada com um alerta permanente.

Foi exatamente nesse momento que, enquanto lia sobre a descoberta de Francine Shapiro, pensei:

“Vou fazer o que ela fez.”

Parei a leitura e fiz movimentos alternados com os olhos por alguns instantes.

Curiosamente, a sensação de perturbação diminuiu.

Agora resta observar algo interessante: se, com o tempo, meu cérebro também recuperará a confiança para finalmente fazer a inscrição no curso.

Talvez seja exatamente assim que o processamento das memórias começa: com pequenos ajustes na forma como o cérebro organiza nossas experiências.

Se você percebe que algumas memórias ainda causam perturbação — sejam experiências recentes ou situações do passado — a terapia EMDR pode ajudar seu cérebro a processá-las de forma mais saudável.

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Texto realizado a partir das informações da Francine Shapiro – Livro: deixando seu passado  no passado

 

 

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