Quando a mente transborda: caminhos para se reorganizar.

De uma vivência clínica, minha mente me levou por outros caminhos. Entre metáforas, poesia e reflexões, encontrei imagens que ajudam a compreender o peso dos pensamentos e a necessidade de criar espaço interno. Convido você a ler este texto como quem atravessa uma travessia: passo a passo, memória por memória, até que o excesso se transforme em clareza.

Na semana passada, em sessão, eu havia reforçado com uma paciente a usar seu contêiner — um recurso usado na terapia EMDR para lidar com o excesso de pensamentos e preocupações quando ainda não é possível resolvê-los. A proposta adicional que dei foi simples: tudo aquilo que perturba — não apenas o conteúdo da sessão — pode ser guardado, temporariamente, fora do centro da mente, para que o funcionamento cotidiano não fique comprometido.

É como uma gaveta de cozinha, de roupas ou um armário entupido de peças. São tantas que se torna difícil encontrar o que é necessário. Assim, perde-se tempo apenas procurando. Isso também me fez pensar no minimalismo japonês no cuidado da casa: nada fora do lugar, nenhuma louça deixada na pia para o dia seguinte. Ou seja, começar o dia já em ordem.

Pensando em nossa cabeça, em nosso cérebro, em nossa mente: há infinita capacidade de memorizar. Mas, quando estamos cheios de pensamentos, sentimentos e memórias ruins, nos faltam condições para ter foco, pensar com clareza — e aí começam as dificuldades. Vivemos momentos de excesso em tudo, que enchem nossa mente. Nossas vias mentais, nossos sentidos, ficam congestionados de “coisas” excessivas, muitas delas negativas.

Voltando à minha paciente…

Na sessão seguinte, ela chegou diferente: mais organizada, mais presente, com maior continuidade de pensamento. O que antes transbordava não havia desaparecido, mas agora estava delimitado, contido. O contêiner cumpria sua função: proteger o sistema nervoso enquanto o tempo certo não chega, dar um contorno, um certo “segura aí, ainda não chegou sua vez”.

Foi a partir dessa mudança concreta que fiz um comentário quase intuitivo, conectado ao universo simbólico dela: Você já reparou que quem inventou esse contêiner foi um inspirado? Isso me lembra as palavras do mestre: “não andeis ansiosos…” A frase ficou ali. Não foi explorada, nem explicada. Apenas lançada — como se lança uma boa imagem quando ela encontra lugar.

Ao longo da sessão, algo ficou claro para mim: para que novas crenças se integrem de fato — especialmente quando pensamos em estimulação para o reprocessamento cerebral — é sempre desejável que elas surjam de dentro, da experiência vivida pela própria pessoa. Claro, quando isso não é possível, vamos oferecendo uma ajuda nesse encontro. Mas todos temos histórias para contar. Não é possível atravessar uma vida inteira sem ter feito nada que possa ter gerado uma experiência boa, positiva, prazerosa, capaz de nos fazer sorrir.

Foi então que propus um outro caminho: “Hoje só quero saber de experiências boas que você já viveu. Momentos em que você pensou: uau. Algo que aconteceu e que deixou uma marca boa.” E assim fomos buscando. Não fora, mas dentro da rede de memória dela.

Vieram lembranças simples e verdadeiras: situações em que se sentiu capaz, confiante, que podia, entre outras. A partir dessas experiências, as crenças positivas começaram a ganhar corpo — não como ideias abstratas, mas como algo ancorado no vivido do passado. Diga-se de passagem, temos a tendência de esquecer as coisas boas e fixar-nos nas ruins, não é mesmo? Mas, para realizar o reprocessamento em EMDR, precisamos desenvolver estratégias que potencializem ou criem crenças positivas, a fim de ajudar na ressignificação das memórias negativas.

Queremos aumentar a chance de ter mais saúde, um cérebro mais limpo e positivo para enfrentar as feras do passado. Assim, propus a criação de uma nova caixa para uma lista de pensamentos bons. Não para o que pesa, mas para o que sustenta. Uma caixa de memórias boas, de crenças já vividas, de palavras e sensações que organizam. Um lugar interno para acessar quando a mente vacila ou quando o excesso ameaça tomar conta de tudo.

Se desejar parar de ler, já terá entendido o principal em EMDR; mas se continuar, vai compreender o que pensei além do contêiner.

Estou mudando de assunto…

Mais tarde, já à noite, como tantas vezes acontece, as ideias continuaram a se organizar em minha própria mente. No banho, vieram-me insights. Pensei em como o relaxamento do corpo permite, muitas vezes, que o pensamento encontre contorno sem esforço.

A associação se fez clara: o contêiner clínico, as palavras que acalmam, a poesia, a música, a contemplação da natureza — tudo isso cumpre uma função semelhante e silenciosa. Pense em como se sente ao olhar um lindo dia de calmaria no mar, com ondas leves, brisa mansa, alguns pássaros voando. Eita, que paz!

São formas humanas de esvaziamento saudável. Maneiras de permitir que o sistema nervoso se acalme. Gestos que devolvem ritmo, limite e organização interna.

Por isso, ao longo da história, recorremos à linguagem quando a mente pesa. Eu gosto de ler poesia e versos bíblicos, podem até não resolver nossos traumas em si, não sei, mas podem interromper a ruminação. Veja como a linguagem faz sentido.

Filipenses 4:6-7 (NVT) “Não vivam preocupados com coisa alguma; em vez disso, orem a respeito de tudo. Contem a Deus as necessidades de vocês e não se esqueçam de agradecer. Então vocês experimentarão a paz de Deus, que excede todo entendimento e que guardará seu coração e sua mente em Cristo Jesus.”

1 Pedro 5:7 (NVT) “Entreguem todas as suas ansiedades a Deus, pois ele cuida de vocês.”

Provérbios 12:25 (NVT) “A preocupação deprime a pessoa, mas uma palavra de incentivo a anima.”

O que fazemos em terapia? Trazer para fora, para aliviar. Mas, no EMDR, temos um jeito diferente e que traz muito conforto: uma memória por vez. O restante, deixamos no contêiner simbólico.

Vamos de poesia?

O que as palavras não dizem… A poesia de Drummond, ao nomear a pedra no caminho, ajuda a mente a não se confundir com o obstáculo.

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Obstáculos existem, não é? Às vezes não conseguimos resolver todas as pedras do caminho. É aí que podemos usar a capacidade do nosso cérebro de se autorregular. Guarde o que não pode ser resolvido agora. Deixe para depois. Isso não é o mesmo que “varrer para debaixo do tapete”. É apenas uma tática para esvaziar a mente e abrir espaço para tomar decisões mais assertivas depois, na hora certa. Não cabe aqui o “não andeis ansiosos…”? Ou seja, não ocupar a mente com o que ainda nem chegou ou com o que já passou e ainda precisa ser trabalhado para ser limpo.

Cecília Meireles tem um poema belíssimo chamado “Cântico da Travessia”, que fala justamente sobre o ato de atravessar, seguir adiante, mesmo diante das dificuldades. Ele é muito usado como metáfora de coragem e de enfrentamento da vida.

“Senhor, eu vos peço licença para atravessar, para atravessar as águas, para atravessar os desertos, para atravessar o mundo…”

Desertos teremos, e atravessar será preciso. Mas, com a mente mais limpa, podemos seguir com mais leveza: um dia por vez, um problema por vez, assim como fazemos na terapia EMDR. Uma memória por vez. Ao final, teremos esse passado ressignificado.

O que estamos dizendo é: assim como a música que embala, a brisa que toca o rosto ou o olhar que repousa na natureza, as palavras também organizam. Nada disso elimina a dor de imediato, mas tudo isso contém — e, assim, ganhamos tempo para ir tirando as pedras do caminho, com o reprocessamento proposto em EMDR.

Em suma, talvez seja isso que sustente a estabilidade possível: permitir que a mente se esvazie do excesso, para que o sistema se acalme, e o pensamento volte a fluir com mais clareza.

Este texto não é uma recomendação clínica. É uma reflexão sobre algo profundamente humano: a necessidade de criar contorno quando a vida transborda. Porque, antes da solução, o que nos mantém inteiros é o cuidado com o ritmo.

Uma mensagem final

A terapia EMDR é uma abordagem integrativa que ajuda pessoas a encontrarem paz com seu passado, a viverem bem o presente e a projetarem um futuro mais leve. Mesmo que haja pedras no caminho, ela ensina a removê-las com maestria, uma memória por vez, até que o peso se transforme em aprendizado e clareza.

Apreciarei ler seu comentário!

 

4 comentários em “Quando a mente transborda: caminhos para se reorganizar.”

  1. MARI LENI FERNANDES

    Sou caminhante nova nos processos da terapia EMDR. Ainda são poucas as situações específicas trazidas à baila para reprocessamento, mas que experiências fantásticas!!! O container, mais que um auxiliar de início com formato rígido, tornou-se meu parceiro, apto e pronto a receber o que me incomoda e causa sofrimento. É evidente os ganhos de tranquilidade, foco, tolerância e determinação. Mais que isso: tenho certeza de que há infinitas possibilidades de me tornar um ser humano melhor.

    1. Beatriz Yamada

      Que lindo Leni. Esse recurso é realmente incrível.
      Eu também faço uso dele. Sim, ajuda mesmo deixar o cérebro livre de perturbações que não temos como resolver logo.
      Diz o ditado que “mente desocupada é oficina…”,
      A gente entende bem o sentido do mesmo…
      Mas, na terapia EMDR queremos a mente desocupada das coisas difíceis que ficam aglomeradas. E assim sendo, teremos mais
      fluidez para pensar nas demandas do cotidiano com mais foco, atenção e paz. Os problemas, vamos trabalhando no lugar certo: num setting terapêutico.

      Obrigada por sua mensagem. 💕

  2. Excelente texto… proposta muito interessante explicada com clareza pela Dra Beatriz.. não só para deixar o passado no passado mas como para lidar com os desafios do presente

    1. Beatriz Yamada

      Exatamente, Mônica. Ficamos presas com lembranças velhas que sugam nossa energia vital. Embora velhas no tempo, na psique continua como se fosse agora.
      De fato, tratar essas memórias deixará a vida
      mais leve e funcional.
      Obrigada pela sua mensagem.

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