Como o cérebro organiza memórias? Entenda o EMDR de forma simples.

O objetivo deste texto é ajudar na psicoeducação de pessoas que estão em terapia com EMDR ou que desejam compreender a abordagem.

O cérebro humano é um dos maiores desafios da ciência. Ainda há muito que não sabemos sobre ele. Por isso, ao longo deste texto, utilizarei comparações do dia a dia e algumas situações reais do consultório. Elas não substituem a ciência, mas ajudam a compreender, de forma simples, conceitos que são bastante complexos.

Uma analogia

As bibliotecárias têm um grande trabalho para organizar milhares de livros. O mesmo acontece em uma livraria. Alguém precisou criar um sistema para que qualquer livro pudesse ser encontrado com facilidade. Nos dias atuais, os computadores ajudam bastante nessa tarefa. Mas, durante muitos anos, tudo era feito manualmente: fichas, códigos, números e muito trabalho para que cada livro pudesse ser localizado quando necessário. Nos escritórios, nas empresas, nos hospitais e em tantos outros lugares acontece a mesma coisa. Sempre precisa ser criado um sistema de organização para encontrar rapidamente aquilo que procuramos.

E o nosso cérebro? Não existe nada que se compare a ele. Nem mesmo a inteligência artificial, com toda a sua velocidade para buscar informações, consegue reproduzir a complexidade do cérebro humano. Pessoalmente, vejo nisso o desenho divino.

Constantemente, recebemos uma quantidade enorme de informações todos os dias. Aliás, nunca tivemos tanto em toda a história humana. O que vemos, ouvimos, sentimos, pensamos, cheiramos, aprendemos, nos emocionamos, entram por algum canal dos nossos sentidos. Muitas dessas experiências passam a compor nossas redes de memória.

Como o cérebro consegue organizar tudo isso? Um mistério que ainda não sabemos muito bem. Mas os cientistas continuam investigando esse funcionamento. Uma das hipóteses é que essas experiências vão formando grandes redes de memória, nas quais uma informação se conecta a muitas outras.

É justamente nessa compreensão que o EMDR se apoia. Quando começamos a processar uma experiência, ativamos uma dessas redes. A partir daí, outras lembranças, emoções, pensamentos, imagens e sensações podem surgir porque também fazem parte dessa rede de conexões.

Outro dia, enquanto eu explicava sobre o funcionamento do EMDR durante uma sessão, uma paciente me disse: “Você fala do cérebro em terceira pessoa.” Respondi apenas: “Sim. E faço isso às vezes quando a pessoa ainda não está acreditando no seu cérebro.” Quando começa a acontecer o reprocessamento, eles ficam surpresos, até sorriem, como que dizendo… “O que está acontecendo aqui dentro?” E passo a dizer: “Vamos ver o que o seu cérebro faz agora. Ele está fazendo suas conexões, confie nele.”

Na terapia EMDR, acreditamos que o protagonista desse processo é o próprio cérebro da pessoa. O terapeuta conduz o tratamento, mas quem organiza, conecta e integra as experiências é o cérebro. É por isso que, durante uma sessão, podem surgir lembranças que aparentemente não têm relação com aquilo que estamos trabalhando. É muito comum alguém perguntar: “Mas o que isso tem a ver com aquilo?” Ou, como diz o ditado: “O que tem a ver alhos com bugalhos?” Para o cérebro, muitas vezes, tem tudo a ver. Ele trabalha por associações.

Se eu digo “maçã”, talvez você pense em vermelho. Outra pessoa pensará em fruta. Outra lembrará da infância. Outra poderá lembrar da Apple. Nenhuma dessas respostas está errada. Elas apenas refletem as conexões construídas ao longo da vida. Se eu digo “pastel”, alguém pensa na feira. Outro lembra da praia. Outro recorda uma viagem em família. Cada cérebro percorre caminhos diferentes.

Foi exatamente isso que outra paciente percebeu durante uma sessão. Ao final, ela me perguntou: “Nossa! Isso tudo estava dentro de mim?” Sim. Muitas dessas informações já estavam armazenadas nas suas redes de memória. Elas apenas foram sendo acessadas à medida que o cérebro fazia novas conexões.

Em outra ocasião, uma paciente terminou a sessão, olhou para mim sorrindo e perguntou: “O que você fez? Eu comecei a sessão pensando de um jeito e terminei pensando de outro.” Minha resposta foi muito simples: “Eu não fiz. Foi o seu cérebro.” Essa resposta resume muito do que acreditamos no EMDR.

Todas as abordagens da Psicologia procuram compreender o funcionamento da mente, da psique e se apoiam em uma teoria para explicar como isso acontece. Na terapia EMDR, essa teoria é o Modelo de Processamento Adaptativo da Informação – PAI(1).

É nele que fundamentamos nossa confiança na capacidade natural que o cérebro possui de integrar experiências que, por algum motivo, ficaram armazenadas de maneira pouco adaptativa.

Costumo dizer uma frase aos meus pacientes: “O mesmo cérebro que nos levou à terapia é o mesmo cérebro que nos cura na terapia.”

Em outras palavras, o mesmo que tem o problema tem a cura. Não porque o cérebro tenha “errado”, mas porque ele continua possuindo uma capacidade extraordinária de reorganizar experiências quando encontra as condições adequadas para isso.

Esse é o fundamento da terapia EMDR. Confiamos na capacidade inata desse órgão extraordinário de integrar experiências, estabelecer novas conexões e favorecer uma resolução adaptativa. É por isso que, durante o processamento, orientamos o paciente a permitir que o cérebro faça o seu trabalho. Muitas vezes, ele encontra caminhos que nem o paciente nem o terapeuta imaginavam. E, justamente nesses caminhos, acontece a reorganização que promove a cura.

Cada cérebro (sujeito) tem sua própria história. E, muitas vezes, aquilo que hoje causa sofrimento pode ser reorganizado quando encontra as condições adequadas para isso.

Se você deseja conhecer melhor a terapia EMDR e entender como ela pode ajudar no seu caso, acesse esse o texto.

Dra Beatriz Yamada (PhD)
Psicoterapeuta em EMDR e Winnicottiana.

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Fundamentos do EMDR
1. Shapiro F. EMDR: terapia de dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares: princípios básicos, protocolos e procedimentos. 3. ed. São Paulo: Amanuense; 2020.

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