Uma pergunta muito comum durante o processo de EMDR é: como saber se uma memória perturbadora foi realmente reprocessada?
No início de um processo terapêutico, é natural que a pessoa ainda não tenha uma experiência própria que lhe permita confiar no método novo para si. Nesse momento, parte dessa confiança pode vir das pesquisas científicas, das experiências publicadas por diferentes profissionais, da própria experiência clínica de terapeutas que trabalham com EMDR e do terapeuta que escolheu.
À medida que o processo avança, porém, algo importante acontece: a pessoa começa a construir sua própria experiência com o reprocessamento. Cada alvo processado se torna, para ela, uma experiência concreta de mudança.
Uma queixa pode estar relacionada a várias memórias
Uma queixa psicológica atual pode estar relacionada a diferentes experiências vividas ao longo da história da pessoa. Por isso, podem existir várias memórias (alvos) associadas à perturbação atual. As memórias relacionadas a uma queixa são identificadas no plano terapêutico e trabalhadas ao longo do processo, uma a uma.
Quando um alvo é efetivamente processado, àquela memória deixa de provocar a perturbação que anteriormente estava associada a ela. Isso é diferente de simplesmente aprender a controlar uma emoção diante da lembrança. O objetivo do reprocessamento não é fazer com que a pessoa precise continuar utilizando estratégias para suportar aquela memória. A mudança acontece na própria relação com a memória.
O que acontece com uma memória depois de processada?
A memória não é apagada, nada é esquecido. A pessoa continua sabendo o que aconteceu. Ela sabe que aquela experiência existiu e reconhece os fatos da sua própria história. Ela pode saber, por exemplo, que naquele momento ficou triste, que sofreu, que determinada situação foi injusta ou que algo importante aconteceu em sua vida, que sentiu culpa, vergonha, humilhação, que foi ferida etc. Mas essas informações passam a pertencer ao passado.
Ao acessar a memória depois do processamento, ela pode ser lembrada sem a mesma carga de perturbação que anteriormente produzia sofrimento. A pessoa lembra. Mas não sofre novamente por aquilo. A lembrança existe, mas não produz mais a perturbação que antes produzia. É justamente essa diferença que permite compreender o que significa uma memória ter sido efetivamente reprocessada.
Quando o passado está presente
Uma das compreensões fundamentais do EMDR é que experiências não processadas podem continuar influenciando o presente.
Francine Shapiro utilizava a ideia de que “o passado está presente” para explicar essa condição. O que isso quer dizer? Embora uma situação tenha acontecido em algum momento do passado, quando não foi devidamente processada, situações do presente funcionam como gatilhos para acessar a experiência congelada no tempo e causar os mesmos desconfortos da época do acontecimento.
Uma experiência pode ter acontecido há muitos anos, mas, quando permanece não processada, algo daquela experiência continua sendo ativado no presente. A pessoa não está apenas lembrando. De alguma maneira, o organismo continua respondendo àquela experiência. Assim, as emoções, pensamentos, imagens e sensações corporais associados ao acontecimento podem continuar sendo ativados como se aquela experiência ainda tivesse alguma coisa a resolver. É isso que o reprocessamento busca transformar.
Quando o passado deixa de invadir o presente
Quando o processamento de uma memória é concluído, ela deixa de funcionar da mesma maneira como uma experiência perturbadora no presente. A pessoa pode olhar para aquilo que aconteceu e reconhecer que a memória permanece, mas sua carga disfuncional deixa de acompanhá-la. Ela passa a ser integrada à história de vida da pessoa, recebendo novos significados e novas associações. Por isso, podemos dizer que o objetivo não é apagar o passado. É colocar o passado no passado.
A própria experiência se torna uma evidência
Como referido no início deste texto, no começo, a pessoa pode confiar no processo porque existem pesquisas, publicações e experiências clínicas que sustentam o uso do EMDR. Mas, depois, ela começa a ter algo ainda mais concreto: a própria experiência. Um alvo foi processado. A memória foi acessada novamente e aquela perturbação não está mais lá. Outro alvo é processado. Novamente, a pessoa percebe a mudança.
Essas experiências vão se acumulando e podem fortalecer a confiança na própria capacidade de atravessar os próximos alvos. Assim, a confiança que inicialmente pode ter sido depositada no método e sustentada pelas evidências científicas e pela figura do terapeuta passa, progressivamente, a ser também uma confiança baseada na experiência pessoal de transformação.
As experiências dos pacientes, quando estudadas de forma sistemática, contribuem para a construção das evidências científicas sobre o EMDR. E, no processo terapêutico, a própria experiência de mudança também pode fortalecer a confiança da pessoa no processo.
A capacidade está em si mesmo
O cérebro possui mecanismos naturais de processamento e integração das experiências. O EMDR busca favorecer esse processo quando uma experiência permanece armazenada de maneira disfuncional. Por isso, o EMDR é centrado na pessoa. Essa capacidade está em cada um de nós, em você.
O terapeuta oferece segurança, presença, conhecimento e recursos para acompanhar o processo. Mas não é o terapeuta quem “coloca” a cura dentro da pessoa. O processo utiliza a própria capacidade do sistema de processamento de informação da pessoa para integrar aquilo que permaneceu perturbador.
Por isso, no EMDR, dizemos que confiamos no PAI (Processamento Adaptativo da Informação), a espinha dorsal do EMDR.
Olhar para a própria história com amorosidade
Depois de uma experiência ser processada, olhar para a própria história também pode se tornar diferente. É o que sempre dizemos aos nossos pacientes: seja amoroso e tenha compaixão por sua própria história. É possível reconhecer que determinadas coisas aconteceram, que algumas foram dolorosas, injustas ou difíceis, que envolveram culpa e vergonha, como já descrito anteriormente, sem continuar carregando emocionalmente aquela experiência. Isso permite olhar para a própria história com mais amorosidade e compaixão.
Alguém pode começar um processamento com um pensamento negativo, como “eu não tenho valor”, e chegar a “eu tenho muito valor”; “sou incapaz” e passar a “eu sou corajosa”; “sou impotente” e chegar a “eu consigo fazer”.
Isso representa uma grande mudança cognitiva, como se escamas caíssem dos olhos e, agora, fosse possível enxergar com mais clareza. É como se as lentes dos óculos estivessem sujas e, depois do processamento, fossem limpas.
E isso pode acontecer depois de um processamento: algo muda. A pessoa pode até se perguntar: “O que aconteceu? Eu estava pensando assim e, agora, mudei tão rápido.” Essa mudança pode ser tão significativa que até mesmo gerar desconfiança. Mas é isso que acontece. É o potencial do PAI para promover essa virada de chave.
Cada pessoa atravessa suas experiências utilizando os recursos que possuía naquele momento. O amadurecimento acompanha a vida, e novas experiências podem ampliar nossa capacidade de compreender, escolher e agir.
A experiência continua fazendo parte de quem somos
Mas não precisa continuar determinando quem somos. A vida não é linear. A vida não acontece em uma linha reta. Podemos avançar, recuar, subir e descer. Podemos encontrar novos desafios e descobrir que ainda existem memórias que precisam ser trabalhadas.
Isso não significa que o processo anterior deixou de funcionar. Cada alvo processado representa uma experiência integrada. E, à medida que diferentes memórias são processadas, aquilo que antes fazia o passado invadir o presente pode deixar de exercer essa influência.
No final, a pessoa não precisa esquecer o que viveu. Ela simplesmente pode lembrar. Lembrar sem sofrer novamente. Lembrar sem carregar aquela história no corpo. Lembrar sabendo que aconteceu — e sabendo, também, que acabou.
Essa é uma das transformações fundamentais que buscamos no reprocessamento em EMDR: o passado continua fazendo parte da história, mas deixa de ocupar o presente.
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Dra Beatriz Farias Alves Yamada
Psicóloga Clínica
Terapeuta EMDR | Terapeuta Winnicottiana
